
As convenções partidárias começam nesta segunda-feira, 20, com decisões centrais da disputa presidencial ainda em aberto. Temas que tradicionalmente chegam definidos a esse momento da eleição, como a escolha dos vices, a montagem de palanques estaduais e a composição das principais alianças políticas, seguem em negociação entre os presidenciáveis. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concentra algumas das principais indefinições, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outros candidatos também chegam ao período com impasses que deverão ser resolvidos até 5 de agosto.
Embora costumem apenas formalizar acordos já fechados nos bastidores, as convenções deste ano começam com decisões centrais ainda em aberto e deverão funcionar também como uma etapa decisiva de negociação. Entre 20 de julho e 5 de agosto, partidos e federações oficializam seus candidatos e definem as alianças para a eleição de outubro. As federações reúnem duas ou mais siglas, que passam a atuar como uma única legenda por pelo menos quatro anos.
A convenção de Flávio está marcada para 25 de julho, em São Paulo. O senador chega à etapa com impasses em diferentes frentes, entre elas a escolha do nome que ocupará a vice em sua chapa. Como mostrou o Estadão, há consenso na pré-campanha sobre a necessidade de escolher uma mulher para o posto. A preferência já havia sido manifestada pelo próprio Flávio como forma de reduzir a rejeição entre o eleitorado feminino, mas ganhou peso após a crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que publicou um vídeo com críticas ao senador e aos demais enteados.
O consenso, porém, não se estende ao perfil da escolhida. De um lado, estão nomes mais identificados com o núcleo ideológico do bolsonarismo, como Bia Kicis (PL-DF) e Júlia Zanatta (PL-SC). De outro, opções vistas como mais técnicas e moderadas, caso da ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos) e da senadora Tereza Cristina (PP-MS). Na quinta-feira passada, 16, Flávio reiterou a preferência por uma mulher e citou Daniella, além das deputadas do PP Simone Marchetto (SP) e Clarissa Tércio (PE).
A decisão esbarra ainda na construção de alianças com outras legendas. No caso do PP, uma eventual aproximação depende de recompor a relação entre Flávio e o senador Ciro Nogueira (PI), presidente da sigla e dirigente da federação União-PP. Os dois se afastaram após os desdobramentos do caso Banco Master.
O Republicanos também condiciona uma possível adesão a acordos estaduais ainda pendentes. Em troca do apoio a Flávio na disputa presidencial, a legenda busca o respaldo do PL a candidaturas aos governos e ao Senado em diferentes Estados. Neste momento, porém, integrantes do partido ouvidos pelo Estadão apontam tendência de neutralidade na corrida ao Planalto.
As negociações entre as duas siglas envolvem palanques considerados estratégicos, entre eles o de Minas Gerais, Estado historicamente decisivo nas eleições presidenciais. A pré-campanha de Flávio ainda não definiu seu arranjo no Estado e trabalha com dois caminhos. Um deles é uma aliança com o senador Cleitinho (Republicanos-MG), que poderia disputar o governo e oferecer palanque ao presidenciável. O outro é lançar uma candidatura própria, com nomes como o empresário Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, e o ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli.
O palanque no Rio de Janeiro, berço político da família Bolsonaro, também segue incompleto. Embora o senador Carlos Portinho (PL-RJ) já tenha sido anunciado para disputar o Senado, o partido aguarda uma decisão da federação União Progressista sobre a manutenção do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil) como segundo nome da chapa, após ele ser alvo de uma operação da Polícia Federal.
Integrantes do PL apontam que algumas decisões da pré-campanha avançaram mais lentamente do que na campanha de Jair Bolsonaro em 2022. A essa altura da disputa, o então presidente já havia anunciado o general Walter Braga Netto como vice na chapa, encaminhado alguns dos principais palanques estaduais e contava com o apoio de Republicanos, União Brasil e PP.
A pré-campanha de Lula também chega às convenções com definições ainda pendentes, embora o quadro em Minas Gerais esteja praticamente encaminhado. Após idas e vindas sobre o nome do PT para o governo estadual, o deputado federal Patrus Ananias aceitou disputar o Palácio Tiradentes, com anúncio nesta segunda-feira.
A chapa, porém, não está fechada. O PT busca agora os aliados para definir um vice no Estado. A preferência é por oferecê-lo ao PSB. A composição para o Senado também não está fechada. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT-MG) deverá concorrer a uma das duas vagas, enquanto a segunda pode tanto ficar também com o PSB ou eventualmente ser oferecida à ex-deputada federal Áurea Carolina (PSOL) se alguma negociação com a federação PSOL/Rede evoluir.
Em Goiás, o PT decidiu manter a pré-candidatura do ex-deputado Luís César Bueno ao governo estadual após a recusa da deputada federal Adriana Accorsi (PT-GO). A orientação, porém, é aguardar a ratificação do comando nacional e do presidente da legenda, Edinho Silva. A convenção estadual está marcada para 4 de agosto, em Goiânia.
Entre os demais presidenciáveis, Ronaldo Caiado será oficializado pelo PSD em convenção nacional marcada para 26 de julho, em São Paulo. Gilberto Kassab, presidente da legenda, será confirmado como vice na chapa. O principal tema do encontro, porém, será a independência dos diretórios estaduais para definir seus próprios palanques na disputa presidencial.
A medida permitirá que os diretórios estaduais apoiem candidatos diferentes de Caiado, conforme as alianças e os interesses locais. A decisão busca acomodar as diferenças internas de um partido que mantém articulações distintas nos Estados, apesar da candidatura própria ao Palácio do Planalto. Lula, por exemplo, deverá contar com palanques do PSD no Rio de Janeiro, Amazonas, Mato Grosso e Sergipe.
No dia seguinte, em 27 de julho, o Novo realizará sua convenção nacional em Brasília para oficializar a candidatura do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema à Presidência. Como mostrou o Estadão, a escolha do vice, porém, deverá ficar para depois. A tendência é que a decisão seja delegada à Executiva Nacional, numa tentativa de ganhar tempo e manter espaço para uma eventual composição com partidos que hoje permanecem neutros ou apoiam Flávio.
Aliados de Zema avaliam que novos desgastes envolvendo o senador ainda podem alterar o quadro político e abrir espaço para negociações com legendas atualmente alinhadas à candidatura do PL.
Ao fim das convenções, partidos e federações precisam registrar em ata as decisões tomadas, incluindo os candidatos escolhidos, o local, a data e o horário da reunião e quem conduziu os trabalhos. O documento é obrigatório para o pedido de registro das candidaturas na Justiça Eleitoral, cujo prazo termina em 15 de agosto. A campanha começa formalmente no dia seguinte.
Fonte: Estadão