Conheça o podcast Salgueiro Assombrado, que conta histórias de terror da “Encruzilhada do Nordeste”

Contando com financiamento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Ministério da Cultura, a jornalista Raquel Rocha e os fazedores de cultura Bruno Feitosa e Jailson Lima desenvolveram o podcast Salgueiro Assombrado.  O projeto, que conta com quatro episódios, mescla relatos orais da cidade, lendas e ficção, prendendo o público do início ao fim, em histórias de arrepiar. Escute os episódios aqui e leia abaixo uma entrevista com Raquel Rocha sobre o podcast.

Como nasceu o podcast Salgueiro Assombrado?

O podcast Salgueiro Assombrado nasceu de relatos orais, de pesquisas em registros civis e religiosos no site Family Search e de jornais antigos do século XIX, na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Uniu-se a isso, o meu gosto pessoal por casos de mistérios e terror. É um gênero que eu consumo muito. O terror é o meu gênero preferido de filme.

As pesquisas já são algo de muito tempo. Uns 5 anos, em média. Como eu pesquiso a genealogia de minha família, já passei madrugadas acordadas lendo livros de registros civis e religiosos, e essas coisas foram confluindo, naturalmente, para o podcast Salgueiro Assombrado.

Nesse sentido, Salgueiro tem bastante conteúdo. Mas é importante, ressaltar que, apesar de partir do real, o podcast Salgueiro Assombrado é uma obra de ficção. Usei da liberdade de criação.

Quais são os fatos narrados no podcast?

São 4 episódios. O primeiro se chama A dança da Morte e fala sobre um massacre indígena e como esse evento está relacionado a fatos sobrenaturais.

O segundo e o terceiro falam sobre uma família que construiu um casarão sobre um cemitério indígena.

O quarto, conta a história de um padre que, ao falecer se torna um fantasma rondando as estradas de Salgueiro.

Alguns dos personagens do podcast são baseados em pessoas reais. Alguns fatos foram originados de fatos reais. O que é verdade e o que é ficção?

90% é ficção. As maldições, é óbvio que são ficção. Os filhos do coronel, a esposa, a forma como se deu a construção da capela, todas essas coisas saíram da minha cabeça e tanto no início como no final do podcast, eu friso que os fatos narrados são ficção. O objetivo é o entretenimento e não o registro histórico.

José Barbosa, que é um dos 3 personagens que têm nome, no podcast, realmente existiu e a descrição dele é verdadeira. Ele foi um criminoso do final do século XIX que atuava em toda essa região de Salgueiro, Serra Talhada, São José do Belmonte e Jardim, cometendo crimes. Aquela era uma época muito violenta e os grandes fazendeiros contratavam salteadores ou bandoleiros para cometerem assassinatos. Por trabalharem para pessoas importantes, esses criminosos eram protegidos pelas autoridades.

Maria Preta, eu encontrei em um registro civil de uma moça de 18 anos que faleceu de um tiro de fuzil. O registro dizia que a moça assassinada estava em casa de Maria Preta. Dei esse nome à personagem dona de um cabaré. Pra você ver como a minha imaginação foi longe. Já o caboclo Adriano, me baseei no caboclo Eduardo, que teria sido o único sobrevivente do massacre indígena e que realmente existiu.

Esses três são os únicos personagens que têm nome. Por quê?

Porque representam os mais marginalizados do podcast e da vida real. Eles são baseados em figuras fundamentais que, no entanto, não são citadas na origem de Salgueiro. Os mitos de fundação, a história relatada de qualquer cidade, geralmente, são contadas pela ótica dos colonizadores, que eram pessoas importantes, tinham prestígio e poder político e econômico. Mas na base, sustentando essa classe privilegiada, estavam os trabalhadores, os indígenas, o povo escravizado, a população miserável. Então, como reparação histórica, dou nome a esses 3 personagens.

Por serem baseados em personagens reais, você não tem receio de resistência por parte dos familiares das pessoas que deram origem a esses personagens?

Os mitos de fundações das cidades, no Brasil, têm uma história muito parecida. É muito comum que elas surjam ao redor de uma capela e são cercadas de misticismo. Os colonizadores são os heróis. Os indígenas e as pessoas escravizadas são silenciados. É quase uma regra.

Então, a história de Salgueiro não difere muito das histórias de outras cidades. Os personagens, óbvio, que têm suas individualidades. Os detalhes, que fazem toda a diferença são específicos, mas, o esqueleto dos mitos de fundação, é bem parecido. É importante ressaltar que são histórias que passam de geração em geração e, nesse percurso, elas vão sofrendo alterações. Vai-se aumentando uns fatos e retirando outros.

Então, eu criei livremente. Deixei minha imaginação viajar e, pelo caráter de fantasia, fica muito claro que os fatos são irreais. Quem ouve sabe diferenciar imaginação de realidade. Acredito que não vá causar mal-estar em ninguém, até porque a história de Salgueiro é de todos os salgueirenses e não, apenas, de pessoas específicas. E sendo de todos nós, temos o direito de dialogar com ela.

Você pensa em dar continuidade a esse projeto?

Penso. Esse foi um projeto financiado pela Política Nacional Aldir Blanc, o Ministério da Cultura do Governo Federal, com o apoio da prefeitura de Salgueiro. Estou no aguardo da abertura de algum edital de financiamento cultural para fazer uma nova temporada dos podcasts. Penso em falar sobre as assombrações relacionadas à antiga cadeia que fica, atualmente, no Memorial do Couro, sobre a mulher de branco que rondava as noites de Salgueiro, a história da serpente voadora que ficava entre o Chalé de Veremundo Soares e o cemitério e sobre as almas das mulheres mortas no antigo cabaré chamado Caneco Amassado.

Da redação do Blog do Chico Gomes

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